“Inofensiva”: é essa mísera e tão medíocre palavrinha que me serviu de predicado nas palavras dos meus próprios amigos. Sim, sou inofensiva…
É muito triste ser inofensiva, não chega a ser ruim, tampouco posso dizer que é bom.
Pais não ficam preocupados com filhos inofensivos, mas não é deles que se orgulham de contar no trabalho.
Inofensivos são esses serezinhos que nos acompanham pela vida, não estão entre nossos melhores amigos, mas não os consideramos inimigos. Por que será que você nunca falou com o inofensivo?? Ah! Eu disse oi, só não conversei mais porque ela era assim, inofensivo…
Por que é que você não olhou para aquela garota? – Qual? Aquela?! Ah! Nem percebi que ela estava lá, meio inerte, meio insípida, meio inofensiva, insignificante.
Até mesmo na selva, ninguém lembra dos inofensivos, eles podem sobreviver, podem se extinguir, mas são tão inofensivos, que ninguém percebe.
Assim o foi com os dodôs. Fala-se até hoje sobre a extinção do grande tigre-dente-de-sabre, do grande mamute, até mesmo da preguiça gigante. Todos desapareceram da terra há milhares de anos…
E quanto aos dodôs?! Ninguém lembra que eles existiram até que o expansionismo europeu atingisse o leste africano e que o último dessa espécie tombou, sozinho, sem grandes efeitos, por volta de 1505, nas Ilhas Maurícias (outra grande e inofensiva ilha, ofuscada por Madagascar).
E o motivo do seu desaparecimento foi bem diferente das grandes alterações climáticas, da caça desenfreada por sua pele, óleo ou carne. Não, ele desapareceu tão somente porque era meio bobo, meio “doido” (predicado que inspirou o nome da ave).
O dodô não tinha medo dos humanos, era grande, desajeitado e não voava, ficava “pairando” por um solo que, de repente, não lhe pertencia mais…
Sim, sou um dodô!
Aguardo a minha extinção, contando os dias que me restam, passando por eles, tentando descobrir no inusitado momentos de riso, de admiração, de felicidade.
Tento interagir com as outras pessoas, me esforço, falo com todo mundo! Permaneço alheia, no entanto.
Alheia como sempre fui, naquele meu mundinho oco, impenetrável, meu canto seguro e solitário, onde meu reinado é absoluto.
Sou súdita e soberana de mim, mas nada tenho em relação a ninguém, apenas aquela antiga sujeição familiar que me ocupa os dias e repleta meus últimos dias com atividades.
É assim que vivo, de últimos dias. Sem sentir pena, sem sentir saudade e, ao mesmo tempo, sem ter qualquer idéia do que virá adiante, qual será o próximo capítulo.
Aventuras? Emoções? Maravilhas?
Nada disso. Jamais foi assim, eu não tenho significância o suficiente para isso.
sou mesmo um dodô
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