Quem somos nós??
É essa a questão que tant nos indamos e que passamos a vida na tentativa vá de responder. Vã, porque antes sequer entendemos o que sonos e do que somos feitos.
“Somos aquilo que quremos ser” – dizem alguns
“Somos feitos de nossos próprios sonhos” – dizem outros.
Pois eu discordo.
Assim como chove quando queremos sol e anoitece quando não queríamos que o dia terminasse, o coração da gente persiste batendo mesmo quando o mandamos parar e, não importa o quanto insistamos na vida e na vontade de ver o mundo, chega um dia em que os olhos se fecham sem nunca mais abrir.
E o que acontece depois?
“Oras, depois vira história” – como diria a Emília do Monteiro Lobato.
Lutamos tanto, insistimos tanto em determinadas coisas na vida e, de repente, tudo isso acaba. Cghega um dia em que não importa o quanto você ame a outra pessoa e tampouco interessa o quanto ela te ame, os braços não vão mais se enlaçar, os olhares deixarão de ser procurar mutuamente e nada mais será como antes.
A mão que me afagava os cabelos, os olhinhos sempre brilhantes e que traziam as marcas de tanto haviam visto, os lábios afetos ao sorriso ainda infantil e, principalmente, aquele narizinho que era só meu e, todo arrebitado, erigia e conferia um quê de madame aristocrático só dela – era o famoso nariz grego, “perfeito a qualquer chapéu”.
O semblante aparentemente austero e a voz firme com aquele sotaque tão típico cediam logo lugar ao olhar de menina e ao sorriso maroto.
Lembro das nossas tardes de leitura de revistas. “-De quem vamos falar mal hoje, Teté? – Oras, de quem se vestir mal o suficiente para que comentemos! É preciso coragem e cara de pau para usar certas roupas fora de casa…”
Colo de tarde, conversa fiada. O que me fascinava era imagnar como a vida dela teria sido antes. Como teria sido a infância, a mocidade. Pensar que nasceu no Brasil, apesar de ser criada na Itália das décadas de 20 e 30…
Indago-me até hoje como a vida dela teria sido se tivesse ficado por lá? Que destino a vida lhe teria reservado? Uma carreira como concertista quem sabe? Quem sabe?? quem sabe…
Acho, contudo, que, no fundo, ela não queria isso não. Queria um filho. E se a natureza lhe negou, ocasiões que até hoje são para mim obscuras trouxeram-lhe o melhor de todos os filhos: meu tio.
Entre esses dois havia uma relação indescritível. Havia carinho, afeto, cumplicidade e devoção em proporções quase incompreensíveis e inexplicáveis. De fato, havia amor. Ou melhor. HÁ amor.
AMOR. Amor não é do tipo de coisa que se acha em qualquer canto, não é obrigação, não nasce nem morre e, ao contrário do que dizem, não tem hora para começar, nem dele é possível se livrar.
Amor não arrebata. É do tipo de coisa que já existe antes da gente, que sempre existiu. A gente é que demora algum tempo para descobrí-lo, às vezes até por conta do tamanho que tem.
Ele está sempre lá, toma conta do que somos. Aos poucos, transforma a alma e fica difícil saber quem é quem. O ser amado e o amante tornam-se inseparáveis, fundem-se a ponto de cada qual ser parte do outro.
Sinto uma saudade intensa e estranha no peito. É próximo à dor e à própria morte. Agora é como se só houvesse o vazio. Eu sei bem o que é. Difícil (até porque um tanto quanto inútil) é explicar.
Sou parte dela, assim como ela o é de mim. Perdi um naco de mim, mas ainda tenho uma partezinha dela cravada no peito e a qual jamais perderei, porque dela me tornei.
Assim como em relação ao meu tio, sou um tanto dela. Tenho-a em meu caráter e naquilo que acredito.
Enquanto isso, os dois estão a um passo a mais de se tornarem anjos. Os meus queridos anjos a velar por mim sempre.
Um dia, por der hoje, amanhã ou daqui a vários anos, eu os encontrarei, os abraçarei forte e sorriremos juntos novamente.
Por enquanto, encontro-os em meus sonhos, nos meus melhores pensamentos e, assim, tenho forças para seguir em frente.
De agora em diante, tenho uma importante responsabilidade: honrá-lhos e orgulhá-lhos, cuidar dos outros e garantir para que seu trabalho por aqui não tenha sido em vão.
Em meio a tantas perguntas, hoje eu só tenho uma única certeza: o Amor.